terça-feira, 19 de agosto de 2008

GRANDE ESPETÁCULO - GRANDES NOMES - NEY SOUZA PEREIRA....


O Ano de 1981 foi significativo para a carreira de Ney Matogrosso. A sua tournée é o maior sucesso de público e crítica. Neste ano a Rede Globo, lança os musicais da série Grandes Nomes, dos quais constam Gal Costa, Caetano Veloso, Elis Regina e outros e Claro NEY SOUZA PERERIA.
Espetáculo Sem Censura ...
Com Marília, cantando Taí e Eu dei, Ney Matogrosso encerra o espetáculo, que tem ainda Bandido Corazón, Bandoleiro, Folia no Matagal, Amor Objeto, Deixa a Menina, Ribeirão, Carinhoso, Viajante, Planeta Sonho, Morena de Angola, Homem com H e Tic Tac do Meu Coração, divididos entre os cinco blocos. Sem dúvida um espetáculo vibrante, extrovertido, uma retomada do trabalho inicial de Ney, onde predominam cores, roupas ousadas e muita sensualidade.
"Fiz um espetáculo sem censura, como se estivesse no teatro. Aliás, acho que não cabe a mim esse tipo de preocupação. Não vejo nada demais em mostrar o meu corpo. Quem acha, precisa voltar a realidade. Que reprima a própria sexualidade, tudo bem, só não tem o direito de tentar reprimir a dos outros". Existem diferenças fundamentais entre Ney Souza Pereira - que dá nome ao programa - e Ney Matogrosso. Na entrevista, por exemplo, quem aparece é o Souza Pereira, calmo, sem maquilagem, roupa discreta, voz pausada, pensamentos curtos e claros. Quem estará no vídeo no dia 4 de setembro é o outro: livre, solto, com requebros marcando as frases, esbanjando sensualidade. "Realmente, o meu nome não tem nada a ver com o programa. Mas é uma regra. Então, vá lá. Tudo o que será visto não é próprio do Souza Pereira, mas do Matogrosso que leva isso às últimas consequências em seu comportamento cênico. Não digo que ele seja um presonagem, já que faz parte de mim. Talvez a melhor definição é que ele é o Souza Pereira acintosamente solto, liberto". Apesar desta vitalidade ser a tônica do seu show e do espetáculo da televisão, nas duas situações os números mais aplaudidos são, respectivamente Viajante e Carinhoso, cantados introspectivamente, somente com um violão como acompanhamento."Eu acho ótimo que isso aconteça. As pessoas estão começando a perceber que, independente de me sacudir, me rebolar, eu canto. Esses são números que só dependem da minha voz. Sei que, pra muita gente, eu não canto, faço papagaiada. Poucos prestam atenção que, por trâs de tudo - ou melhor, antes de tudo -, o que me mobiliza é o ato de cantar, que adoro. Minha voz tem que estar sempre em primeiro plano, embora muitos achem que eu sou simplesmente uma alegoria."
O show foi ao ar no dia 04 de setembro de 1981.





sexta-feira, 15 de agosto de 2008

NEY MATOGROSSO - 1981


No segundo semestre de 1980, Ney faz sua primeira tournée na Argentina. Solidificando uma posição até então alcaçada apenas com a constante execução dos seus discos e as críticas favoráveis dos principais jornais e revistas, principalmente a edição dominical de clarin. "Começei a me surpreender na entrevista coletiva - diz Ney -, onde os repórteres sabiam quase tudo a respeito do meu trabalho. Depois eu é que fiquei supreso com a reação do público argentino, participando intensamente de tudo. Me senti em casa." Quem faz sucesso no mercado argentino tem grandes possibilidades de repetir o êxito nos demais países do mercado latino-americano e espanhol. Por isso, a Ariola nova gravadora de Ney Matogrosso, deverá lançar em janeiro de 1981 um compacto simples com as músicas Bandido Corazón, de Rita Lee, e Bandoleiro, de Luli e Lucina em Espanhol. Por outro lado, Ney está voltado para uma conquista mais sólida do mercado nacional. Estréia pela Ariola com o compacto das músicas Folia no Matagal , de Eduardo Dusek e Luís Carlos Góis, e Seu Valdir, de Marco Polo, música essa que foi censurada com recolhimento de alguns discos, mas logo resolvido. "Meu primeiro trabalho para a Ariola - acrescenta Ney - enfrentou um ligeiro problema com a Censura, logo solucionado. Mas não gosto de falar em Censura, prefiro falar em outras coisas." Como, por exemplo do seu primerio elepê para Ariola. Antes de definir o repertório desse disco, Ney pretendia cantar o universo do índio brasileiro, e estava pesquisando repertório através de fitas remetidas por autores. Tom Jobim, inclusive, escreveu Burziguim especialmente, mas que não pôde ficar no disco. Desistiu do projeto e ganhou de presente Amor Objeto, de Rita Lee e Roberto de Carvalho, e redescobriu, através da indicação de Mazzola Homem com H, música inclusive que não iria entrar no disco e show. E mesmo sendo um disco de miscelânea, Ney diz que representa um momento importante para sua carreira". (Revista Amiga, 1981, Reportagem de Paulo Macedo).
"Pela primeira vez eu fiz um show dirigido é bem isso, um show organizado. Por que eu sempre fazia um show de maneira muito unilateral. Isto é, de dentro pra fora aí surgiu o AMIR HADDAD para fazer a direção desse show. Eu conheço o Amir há muitos anos; ele sempre me observou e as coisas que dizia sempre me foram muito úteis. Foi por isso que eu o convidei para fazer a direção. Ele me perguntou qual seria o formato do show. E eu cheguei à conclusão de momentos fortes de outros shows meus, intercalados por músicas do meu último disco e outras coisas que eu gosto de cantar. Foi aí que surgiram os três bailarinos que funcionam como uma memória. Com relação a capa do disco, o gavião real é o maior passáro da América e sempre houve uma certa relação entre minha pessoa e esse pássaro. Muitas pessoas que transam o esoterísmo apontam uma relação entre ele e eu e, aí eu resolvi colocá-lo na capa desse disco, eu sempre quis que ele saísse da minha cabeça, inclusive no primeiro desenho que fizeram para a capa, parecia que ele estava pousado na minha cabeça (risos). Aí eu expliquei que não era nada disso, que era alguma coisa voando da minha cabeça para fora. É um símbolo muito partilar. O pensamento procurando um contato." (Revista Violão & Guitarra, nº 14, Ano II, 1981 - Ney Matogrosso)

O SHOW

Em 03 de junho de 1981, numa quarta-feira, Ney Matogrosso faz a sua priméria estréia no Canecão/Rj. Seria o início de uma das temporadas de maior sucesso em sua carreira. O Custo operacional foi de Cr$8,5 milhões bancados pelo próprio Ney. Enquanto produtor, Ney é responsável por uma enorme equipe 23 pessoas, desde Jorge David, o diretor de cena, até uma banda luxuosa, com nove integrantes, que forma a moldura perfeita para uma voz privilegiada em timbre, registro e flexibilidade."Toda a filosofia desse trabalho é cósmica."


O show foi criado para grandes espaços. Depois de um mês no Rio de Janeiro, a troupe se desloca para São Paulo, onde o Anhenbi será o palco das apresentações. A partir daí, serão três meses de viagem por todo Brasil, logo em seguida por uma tournée latino-americana, que começará na Argentina e terminará no México. (Uh Revista, Ney Matogrosso - Extroversão sem limites - Rio, 03 de junho de 1981).
Neste show o roteiro não se fundamenta exclusivamente no disco. Ele é mais uma retrospectiva da carreira de Ney Matogrosso, iniciada há nove anos, (nota da época), com o conjunto Secos & Molhados. Aliás a primeira música cantada no show é justamente Mulher Barriguda, que não foi grande sucesso do conjunto, mas é uma das preferidas de Ney. A idéia era abrir o show com o maior sucesso de Ney Matogrosso quando ele participava com João Ricardo e Gerson Conrad dos Secos & Molhados. Essa música era O Vira. Mas Ney excluiu a música "porque não sei se minha cabeça aguentaria a pressão", diz ele. A primeira música do show é Mulher Barriguda, as demais músicas que compõem o show são: Três Caravelas, Cubanacan, Bandido Corazon, Ribeirão, Amor Objeto, Bandoleiro, Mata Virgem, Deixa a Menina, Ando Meio Desligado, Terra Firme, Viajante, Homem com H (o seu maior sucesso no momento), Planeta Sonho, Folia no Matagal, Vida Vida e Morena de Angola.
As roupas usadas pelo cantor têm merecido comentários. Em uma das cenas, por exemplo, quase nu, apenas vestido com uma calça já chamada de "frente única" (as nádegas ficam completamente à mostra), o objetivo de Ney é, segundo ele, uma proposta de liberdade: "A única coisa que sempre me interessou, e isso eu estou conseguindo, foi deflagar um processo de liberação para todas as pessoas que estiverem atentas. Como o sexo é um grande tabu, ainda, as pessoas se escandalizam, porque vêem no palco a imagem de suas frustrações e seus medos. Sei disso e cada vez me esforço mais para escandalizar. Não acredito nos gestos tipicamente femininos ou masculinos. Essa história do homem ter atitudes de machão é bobagem. Não posso dizer que um cara veja o meu show e saia dali totalmente livre. Mas nada do que faço é inconsciente, no palco, em que a cena desaparece e passa a ser vida mesmo. Quem se ligar em minhas propostas já terá para si um bom ponto de partida".
E, neste show, o que fica mais patente é o ato de liberado de Ney Matogrosso em não se esconder. Pelo contrário, ele se mostra por inteiro, com toda a força numa adequação perfeita de corpo, alma e voz. Aos 40 anos, em plena forma tanto seu corpo quanto o espírito, Ney Matogrosso, nesses tempos de liberdade e, consequentemente de quebra de tabus, dá uma amplitude maior a sua arte enxertando-a com objetivos mais consistentes. A liberdade com ele se mostra é mais do que recursos cênicos, é antes de tudo uma palavra de ordem para a liberdade geral, como ele mesmo afirma.
Este estágio atravessado atualmente por Ney não significa propriamente uma mudança. Ele apenas, dentro de um processo natural de enriquecimento interior, tem acrescentado alguns valores ao seu universo íntimo. A espiritualidade - não confundir com misticismos -, por exemplo, é a sua mais recente descoberta. E sobre essa nova descoberta que ele fala, com um certo pudor, é claro, por temer os rótulos inevitáveis, os julgamentos apressados e incorretos. "Estou me preocupando agora com o espíito, algo que nunca me tocou antes. Mas, eu sabia que, na hora certa, iria me voltar para esse lado homem. Isso não significa que esteja ligado a qualquer religião nem que vá fazer um retiro. Significa apenas que estou procurando a essência humana, que é o que fica. O corpo acaba com a morte". Neste show, que é dirigido por Amir Haddad, a preoucpação foi mostrar os melhores momentos da carreira de Ney. Como não poderia deixar de ser, são relembrados os tempos em que ele era a estrela maior dos Secos & Molhados, o que viria a provocar a desintegração do conjunto, a música Cubanacan remete as lembranças do primeiro show solo, Bandido o sucesso que o desvinculou definitivamente do grupo, Bandoleiro do show Feitiço, algumas inéditas para o show e as suas novas músicas são mostradas no show". (Jornal TV Gazeta, Vitória, Graciano Dantas, 1981).
BANDA ARTE & CIA
Jorjão Barreto - Teclados e Vocal
Pisca - Guitarra e Vocal
Pedrão - Baixo e Vocal
Gerson Borges - Teclados, Percurssão, Vocal
Sergio Della Monica - Bateria
Chacal - Percussão
Chico Sá - Sax-flauta
Darcy Seixas - Trombone
Dom - Trumpete
Direção Musical - Arte & Cia
Bailarinos
Clermont Aguiar - Kiko Guarabira - Luis Carlos Nogueira
Roteiro Musical
Mulher Barriguda
3 Caravelas
Cubanacan
Bandido Corazón
Ribeirão
Amor Objeto
Bandoleiro
Mata Virgem
Deixa a Menina
Ando Meio Desligado
Terra Firme
Viajante
Homem com H
Planeta Sonho
Folia no Matagal
Vida Vida
Morena de Angola

segunda-feira, 7 de julho de 2008

SEU TIPO

O DISCO
Ainda em sua Turneé Feitiço em 1979, Ney ganha o prêmio de Melhor cantor do Ano. Em outubro de 1979 ele apresenta seu novo álbum - Seu Tipo... "Eu estava sentindo necessidade de uma mudança! E o primeiro sintoma foi a vontade de cortar o cabelo. Cortei com medo. E cortei aos poucos! Gostei.
Na verdade, tudo isso é uma inquetação que está comigo há um ano, exatamente desde o Feitiço. Falo do show. Tive que montá-lo em uma semana para cumprir um contrato de três meses no Nordeste. Não podia levar o mesmo show do ano anterior - Bandido. Então, bolei o Feitiço às pressas. Afinal, bastava fazer bem o que eu já sabia.
No final da temporada, eu estava mais parado, procurando uma saída... E a saída, acredito está aí. Um disco mais mais calmo e mais maduro. Até que enfim! As pessoas que estão esperando festa não vão gostar. Nesse disco tem até samba-canção. Não é mais romântico mas fala de amor. Tem uma coisa de dor-de-cotovelo, forte, é Dor Medonha de Fátima Guedes e tem uma canção de Jobim e Vincius, nova, chamada Falando de Amor. É o tema geral do disco embora eu toque em outros assunto, é o amor. Não é amor/paixão. É o amor de uma forma mais ampla. Tem uma versão que o Caetano fez de Nature Boy, linda! E tem Trapaça, de Herman Torres, Último Drama, de Mauro Kwitko (o mesmo de Mal Necessário). Tem Luli/Lucina, Joyce e a música que dá nome ao disco - Seu Tipo - de Eduardo Dusek e Luiz Carlos Góis. Ainda Regravei a Rosa de Hiroxima, arranjo de Joyce e uma música do João Ricardo - Tem Gente com Fome - em cima de um poema de Solano Trindade. O Disco é isso. Diferente sim. E acho que no tempo certo! Não pela minha idade. Digo mais pelo tempo de trabalho: sétimo ano de carreira e sétimo disco - um número forte, não é? Pela primeira vez estou de cara limpa! A maquilagem eu usava propositadamente para me esconder. Tinha medo que o Ney-público interferisse no Ney-indivíduo. Mas lentamente eu já vinha tirando isso. no próximo show - fevereiro provavelmente - vou usar um terno. Não porque finalmente eu tenha entrado nos eixos. Eu apenas vou usar o terno como uma fantasia, uma roupa como aquelas que eu usava na fase do bicho! O que aconteceu é que, com o tempo, fui amadurecendo, ficando mais seguro de mim. Não pretendo me maquilar também! Não sei como vai ser porque também nunca fiz um show sem maquilagem. Acho tudo isso meio desafio, para mim. Eu sempre me separo do Ney-no-palco! São duas coisas distintas! Mas agora, sinto que os dois vão se encontrar pela primeira vez... e quero ver o que vai acontecer! ... (Entrevista Revista Fatos e Fotos, reportagem de Lúcia Leme, novembro de 1979).

O Show

Em 27 de fevereiro de 1980 Ney estreia o show Seu Tipo no Teatro Carlos Gomes, Rio.


Ney pediu ao costureiro Hugo Rocha que desenhasse algo diferente, um terninho igual ao que a cantora Simone usou em seu recente show no Canecão. "Quero enxugar meu visual, mostrar que sou um cantor", é sua declarada intenção com o novo garda-roupa. Com o Teatro Carlos Gomes completamente lotado, Ney Matogrosso entra em cena e surpreende o público: o cantor surge vestindo um elegante terno branco, com colete e gravata. Durante as primeiras quatro músicas ele se mantém com o terno, aparecendo em seguida de malha. Momento de grande emoção foi registrado quando Ney declama o poema de Solano Trindade e Grande Otelo subiu ao palco para cumprimentá-lo pela belissima escolha. E depois mudando novamente de roupa atrás de um biombo no palco, canta a música Fala, e encerra o show com a música Um Índio.

Como era de se esperar Ney Matogrosso teve uma estréia apoteótica de seu show. Muita gente querendo entrar, expectativa geral, muitos aplausos no final. Depois do espetáculo, Ney convifou para seu camarim um grupo selecionado de amigos. O público, entretanto, não conteve sua empolgação e invadiu o camarim do cantor que recebia suado e sem camisa. Felicissimo: havia corbeilles da orta do teatro ao camarim.... (nota de jornal da época/fev. 1980)








Músicas

Seu Tipo - Eduardo Duseke e Luiz Carlos Gois
Coração Aprisonado - Luli e Lucina
O Seu Amor - Gilberto Gil
Ardente - Joyce
Não Há Cabeça - Ângela Ro Ro
Doce Vampiro - Rita Lee
Fala - João Ricardo/Luli
Encantado - Caetano Veloso
Barco Negro - Piratini/Caco Velho
Balada da Arrasada - Ângela Ro Ro
Ando Meio Desligado - Rita Lee/Arnaldo Batista
Falando de Amor - Tom Jobim/Vinícius de Moraes
Último Drama - Mauro Kwitko
Me Roi - Luli/Lucina
Napoleão - Luli/Lucina
Marina Marinheira - Geraldo Vandré
Tem Gente com Fome - Solano Trindade
Cachorro Vira Lata - Alberto Ribeiro
Rio de Janeiro - Ari Barroso
Um Índio - Caetano Veloso

Músicos

Grupo Terceiro Mundo
Jorge Luiz de Carvalho (Jorjão) - baixo, violão e voz
Jurim Moreira (Jurim) - Bateria
Márcio Cotti Miranda (Marcinho) - teclados, vocal
José Paulo Souza (Zepa) - , guitarra, viola
Luiz Paulo Guanabara (Luiz Paulo) - sopros
Sidney Martins Moreira (Cidinho) - percursão

quinta-feira, 26 de junho de 2008

FEITIÇO


O DISCO

"Essa capa buliçosa, provocativa, Ney? Proposital artifício para chamar a atenção? (Porque a crítica tem dedicado mais espaço a nudez de Ney que ao trabalho que exibe no disco).

- Olha, não vou negar, nem é do meu feitio, você sabe: Eu sabia que ia dar o que falar. Sabia, mesmo, mas é bom, não é? Eu mesmo me surpreendi, quando vi a foto ampliada. Enquanto era um slide pequeno, tudo bem, mas não achei nada demais. Mas depois, aquela fotona... Eu pensei: ih... Aí, eu mesmo me surpreendi, imaginei logo o que não ia ser com as outras pessoas. Mas também, acho que já deviam estar mais ou menos esperando por isso. Que mais me faltava fazer? Só ficar nu, mesmo.

Ney diz também que o projeto visual da capa foi mais uma feliz coincidência que o fruto de um planeijamento demorado: sua amiga a fotografa Mariza Alvarez, vinha há anos tentando marcar com Ney uma sessão de poses para um ensaio de nus, "coisa que eu sempre quis fazer. Quando chegou a hora de escolher a capa do disco, pensei logo: pronto, taí a oportunidade de fazer os tais nus." As sessões de pose foram longas, trabalhosas.

- No começo, tínhamos mil idéias, mas nada dava certo, visualmente acabou saindo uma coisa inteiramente diferente daquilo que a gente tinha planeijado, no início. Mas ficou ótimo. Eu adoro. (Jornal do Brasil - Janeiro de 1979).

Feitiço é uma nova fase na vida e na carreira de Ney Matogrosso, depois de anos de contrato com a Continental, Ney estréia na WEA e inicia a parceria com o produtor Mazola, que lhe proporcionou muitos sucessos em sua carreira. É também sua estréia em mixar um disco todinho nos Estados Unidos, em Los Angeles, e na época ele ficou muito impressionado com a liberdade que curtiu por lá.

O SHOW



O show está montado desde a época de Bandido. "Logo que eu montei o show, tive que viajar. Este show é algo assim como a entressafra. É o meio-termo entre o Bandido e O Feitiço. Não é exatamente um show para teatro. É mais para clubes. Acontece que quando eu estava procurando um teatro no Rio, para lançar o Feitiço, soube que o Teatro Alasca estava para ser inaugurado. Fui até lá e gostei muito. É muito bem adaptado, sem falar que estamos em casa. A Galeria Alasca é verão. Vou fazer esta temporada de 3 de janeiro (1979) ao dia 23, porque adoro trabalhar no Rio, no verão."



O show está dividido em duas partes: a primeira é teatro de revista, onde Ney se descontrai e libera todo o seu Feitiço. Na segunda parte, Ney parte para um mini-concerto. As músicas são todas do disco Feitiço e mais algumas de novos compositores, como ricardo Pavão e Mauro Kwitko. "Este show não tem uma linha definida, mas pretende levantar o público das cadeiras."

Curiosidade

"A Censura, o Nu e Ney Matogrosso - Com a notícia de que a censura liberará a Playboy e Playmen americanas e outras importadas para circularem no Brasil, como todo seu arrojo em fotografias (as revistas brasileiras ficarão tímidas diante de tanta liberalidade), muitos já se preparam para enfentar a forte concorrência de vendagens que se aproxima, caso a censura confirme a autorização. O panorama é simples e compreensível se não for desta forma: liberando as americanas é justo que se libere também as fotos para as brasileiras essencialmente a regiao pubiana da mulher. Se assim não for, não haverá justiça. O Cantor Ney Matogrosso, por exemplo assume o pioneirismo em ser o primeiro homem a se fotografar nu (a foto é da capa de seu último disco e foi até distribuida em forma de calendário de bolso). Os outros ângus de Ney, claro, foram devidamente censurados." (Nota de uma revista da época).
Portanto, após a liberação Ney foi o primeiro homem a ser fotografado nu.

MÚSICAS
Yes, Nós Temos Bananas - João de Barro/Alcir Pires Vermelho
Vendedor de Bananas - Jorge Ben
Bandoleiro - Luly e Lucina
Sensual - Tuca/Belchior
Fé Menino - Gilberto Gil
Dos Cruces - Carmelo Larrea
Tic Tac - Alcir Pires Vermelho/Walfrido Silva
Circo Marimbondo - Milton Nascimento/Ronaldo Bastos
Jardins da Babilonia - Rita Lee/Lee Marcuci
Tema dos Músicos
Você não entende Nada - Caetano Veloso
Foi Assim - Paulo André/Raui Barata
Mal Necessário - Mauro Kwitko
Bandido Corazon - Rita Lee
Rosa de Hiroshima - Vinícius de Morais/Gerson Conrad
Carinhoso - Pixinguinha
Não Existe Pecado ao Sul do Equador - Rui Guerra/Chico Buarque

quarta-feira, 25 de junho de 2008

BANDIDO


"Um dia, Ney Matogrosso pediu uma música para Rita Lee. E ela: "Mas eu nunca fiz fiz uma música assim por encomenda." E ele: "Pois então faça uma agora." E ela fez "Bandido Corazón". Para o espanto dele: "Mas é a minha cara. É a música que eu teria feito. O jeito que eu falaria da minha vida."
Daí começou o "Ney Matogrosso Bandido". Inicialmente, apenas um show em cima do gênero.
Foi então que em janeiro de 1977 que 2000 presos da Penitenciária Lemos de Brito, no Rio de Janeiro, numa enquete para escolher quem faria o show de encerramento do festival de música promovido por eles, escolheram o que representava a liberdade: Ney Matogrosso.
Com a idéia de "Bandido" já na cabeça, o convite não poderia deixar de ser mais oportuno.
Ney subiu no palco; na plateia 2000 pessoas com os olhos arregalados prestando muita atenção naquele corpo magro, que o parava de se mexer como uma serpente, e naquela voz fina e afinada. Alguns comentários: "Parece a Carmem Miranda." E Ney foi cantando cada vez com mais liberdade. "Canta 'Cubanacan'?" E por que não? O show foi o maior sucesso. A partir dessa experiência com os presidiários, veio toda a idéia do show e de um novo disco". (Revista Música - a nova impressão do som nº 7 - 1978).
"Bandido foi o contraponto do Homem de Neanderthal. O luxo se transformou em simplicidade, e o cenário tomou forma com objetos que Ney levou de casa: um espelho oval enorme, um baú, uma rede peluda e um biombo pequeno. De um cenário antigo do Teatro Ipanema, pegou emprestado uma árvore, que acabou virando o grande hit da composição cênica: ele surgia detrás da árvore, tocando castanholas. Quando saiu do Ipanema, mandou fazer uma igual, porque o teatro não pôde emprestar a árvore que, até então, estava lá abandonada.
O sucesso de Bandido revelou-se proporcional á simplicidade: enorme. Liberto da carga que se impôs no Homem de Neanderthal (de provar que era capaz), Ney relaxou e conseguiu e conseguiu curtir o prazer que sentia em cantar e se relacionar, de maneira menos agressiva, com o público. O sorriso apareceu no rosto, simbolizando talvez o verdadeiro início da sua carreira: até hoje, ele dedica um carinho todo especial ao Bandido, por tê-lo desvinculado definitivamente do estigma de ex-Secos & Molhados. A partir do show, passou a ser visto, individualmente, como Ney Matogrosso - um artista com características próprias e com uma trajetória que veio atraindo, com o tempo, faixas cada vez mais amplas de público. " (Denise Pires Vaz - Um cara meio estranho - pag. 63).

Roteiro Musical:
Airecillos (Marlui Miranda)
Aqui e Agora (Luli)
Usina de Prata (Rosinha de Valença)
Bandido Corazon (Rita Lee)
Paranpanpam (De Karlo)
Cante uma Canção de Amor (Odair José)
Gaivota (Gilberto Gil)
Mulheres de Atenas (Augusto Boal/Chico Buarque)
Trepa no Coqueiro (Ary Kerner)
Prá Não Morer de Tristeza (Caboclinho/João Silva)
Com a Boca no Mundo (Rita Lee/Lee marcucci/Luiz e Carlini)
Retrato Marron (Rodger Rogério/Fausto Nilo)
Postal de Amor (Raimundo Fagner/Fausto Nilo/Ricardo Bezerra)
A Lua Girou, Girou (Domínio Público)
Pássaro Proibido (Caetano Veloso/Maria Bethânia)
San Vicente (Milton Nascimento/Fernando Brant)
Seu Waldir (Marco Polo)
MÚSICOS
Elber Bedaque - Bateria
Jorge Carvalho - Baixo
Roberto de Carvalho - Guitarra
Jorge Olmar - Violão e Viola
Marcelo Salazar - Percussão
Elias S. Mizrahi - Teclados

sábado, 16 de fevereiro de 2008

"O Homem de Neanderthal"

Ney enfrentava uma barra muito pesada, tinha que provar que não tinha acabado sua carreira, muito pelo contrário que estava apenas começando. "Na volta de Mato Grosso, depois de quase um mês de descanso, foi assistir a um show de Astor Piazzola e, no final, falou com ele que era cantor e queria gravar uma música sua. Surpreso, viu que Piazzola conhecia o Secos e Molhados, e, ainda por cima, o convidou para gravar com ele na Itália. Não desmaiou porque era controlado. Quando voltou de Milão, com o compacto debaixo do braço, começou a procurar os músicos para formar uma banda. Quem o conhecia do Secos e Molhados e escutava a gravação, tomava sempre um susto: ele estava cantando muito sério músicas bastante difíceis. Márcio Montarroyos, o primeiro músico de quem se aproximou, aceitou o convite para participar da banda, porque considerou o trabalho sério e de ótima qualidade. A opinião de Montarroyos foi fundamental para manter seu ânimo de continuar batalhando: Afinal, já havia percebido que muita gente duvidava dele o tempo inteiro.

No final das contas, a banda reuniu tantas feras que só durou o tempo de fazer o show e o disco: Montarroyos, Guilherme Vaz, Bruce Henry, Cláudio Gabis, Elber Bedaque, Jorge Omar, Chacal e Sérgio Rosadas - todos, empolgados com a liberdade de criação durante os três meses de ensaios. O Homem de Neanderthal estreou no teatro do Hotel Nacional, no Rio, em 15 de março de 75, marcando a volta de Ney, sete meses depois do término do Secos e Molhados. O disco, gravado quase simultaneamente pela mesma gravadora da época do conjunto, registraria o radicalismo da proposta, com macacos e araras gritando, vento soprando e cachoeiras correndo. No palco, o impacto aumentava. Uma superprodução de quase meio milhão de cruzeiros (na época) petendia assegurar que Ney, daquela vez, vinha para ficar. No fundo, uma necessidade pessoal de mostrar competência.
Meio bicho, meio gente, ele surgia no cenário de uma imensa floresta, envolto em peles de animais e parecendo muito mais próximo da natureza em seu estado puro que do civilizado mundo humano. Extremamente agressivo na postura e, ao mesmo tempo, distante com a platéia, Ney não dava um único sorriso durante a apresentação: a insegurança excessiva só lhe permitia buscar o melhor desempenho cênico. O público se deslumbrou. Caetano Veloso lhe disse que o show chegou a incomodá-lo de tão perfeito. Nada Falhou ou foi esquecido. O programa do espetáculo, feito pelo artista plástico Rubens Gerschman (que também cuidou da programação visual do disco), constituia um acontecimento à parte". (Um Cara Meio Estranho - Ney Matogrosso, Denise Pires Vaz, 1992).


MÚSICAS

Homem de Neanderthal - (Luiz Carlos Sá)

Açucar Candy - (Suely Costa e Tite Lemos)

Idade de Ouro - (Jorge Omar e Paulo Mendonça)

Tercer Mundo - (João Ricardo e Julio Cortazar)

No Colo da Tarde - (Jorge Omar e Paulo Mendonça)

América do Sul - (Paulo Machado)

O Corsário - (João Bosco e Audir Blanc)

Pedra de Rio - (Luli, Lucina e Paulo César)

1964 II - (Astor Piazzola e Jorge Luis Borges)

As Ilhas - (Astor Piazzola e Geraldo Carneiro)

Cubanacan - (Lejuana)

Barco Negro - (Piratini, Caco Velho e D.J. Ferreira)

ELENCO

Ney Matogrosso - Tenore Bianco

Claudio Gabis - Guitarra, Bandolim, Sitar

Jorge Omar - Violão, Viola

Chacao - Percussão, finger bells, tambos d´água duplo

Eler Bedaque - Bateria

Bruce Henry - Fender bass, baixo acústico

Guilherme Vaz - piano acústico, e/piano, sintetizador

Marcio Montarroyos - Trompete, flugelhorn, e/trompete, e/piano (na música Barco Negro), berrante

Sergio Rosadas - Flauta, flautim, sax tenor

As Primeiras Apresentações em Carreira Solo.

Em dezembro de 1974, Ney Matogrosso aparece pela primeira vez em um clip gravado para o Fantástico cantando a música "Greensleeves", e muito curiosamente em Inglês, sendo essa a única música gravada nesta língua, e também somente para o especial, pois não fora lançado em disco. E já nessa época já preparava seu novo disco solo e também o primeiro show.
"Pouco antes de estrear o Homem de Neanderthal em 1975, Ney recebeu um convite para participar do festival Abertura, em São Paulo. Consciente da expectativa que cercava sua volta, resolveu caprichar na roupa da apresentação, já que seria a primeira vez que pisaria no palco sozinho. Arrumou uma pele de onça parda e Ricardo Zanbelli costurou o couro no seu corpo - as pernas do animal nos seus braços e pernas, a cabeça enfiada na dele, o rabo pendurado no lugar certo. Ney adorou aparecer assim, mas, por via das dúvidas, surgiu armado com um punhal de chifre amarrado na cintura. Sério, cantou América do Sul e Cubanacan, e, como as provocações não vieram e a receptididade foi boa, saiu um pouquinho menos ansioso quanto ao seu futuro profissional" (Um Cara Meio Estranho - Ney Matogrosso - Denise Pires Vaz).